segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Pochetes, purpurina, bala perdida...


Quando meu avô faleceu eu olhei bem no meio da cara gorda de deus e disse que jamais seríamos amigos de novo. Eu me achava no direito de julgar que deus não tinha o direito de levar embora o que era meu, e tão precioso.

Há cerca de três anos um senhor que trabalhava comigo voltou estarrecido da lanchonete da esquina. "Duas meninas se beijando na minha frente. Na minha frente! Na frente de todos...".

Em um ato um tanto impulsivo -desencadeado talvez pelo meu olhar em silêncio diante seu relato- ele disse que tinha medo. Disse que tinha um filho e que tinha medo de que ele fosse gay.


Não tem nada a ver, mas vai ter.

É esse o ponto da ignorância qual nos encontramos e desvestimos nossas mãos das pedras carregadas para jogarmos naqueles que pensam diferente -ou que sequer sabem o que pensar- mas sentem medo, porque nós sentimos.

Eu tive medo de que meu irmão fosse gay. O meu conhecimento acerca de gay era Cazuza e Renato Russo. Sobre ambos eu ouvia dizer que haviam morrido de 'viadagem'. Estudei 'viadagem', descobri que não matava, mas que muita morte decorria da supracitada ignorância.

Eu pedi pra entender, nas demoradas conversas que tive com deus - depois do meu bisavô me ensinar a respeitá-lo não tendo emburrado com ele, mesmo ele tendo levado seus dois filhos homens - eu pedi para entender 'a viadagem'.

Por que? Porque quando ainda bem pequena eu escrevi "FORA FHC" de canetinha no antebraço e minha mãe indagou se eu fazia alguma ideia do que queria dizer com isso. Eu não sabia.

Assumir que estava apenas reproduzindo o que havia lido em algum lugar, sem o mínimo conhecimento de causa possível acerca daquilo, doeu em uma vergonha que me fez jurar a mim mesma que eu jamais reproduziria ou discorreria sobre algo qual não tivesse um pequeno conhecimento que fosse, e quanto mais eu quisesse falar sobre, mais eu deveria me empenhar a conhecer e, pretensiosamente, compreender.

O capitalismo está em crise, ele sobrevive assim. Nenhum de nós -que giramos as engrenagens deste sistema- podemos nos dizer alheios à crise. Mas a crise vai um tanto além, eu acredito. Parece tudo invertido, ações políticas, relações humanas, a sociabilidade -generalizo, sim- tudo.

Brasil - não somos governados por coxinhas ou mandiocas, somos governados pelo dinheiro e, assim, desgovernadas as nossas vidas, que se não valem dinheiro, não tem valido nada. A banalização da vida atingiu um nível tão absurdo em tão pouco tempo de vida que tenho, que sinto medo de futuros tão próximos.

A monogamia foi construída numa lógica patriarcal para facilitar a manutenção da ordem, ordem essa pautada no desenvolvimento produtivo do capital. Há alguns dias me deparei com jovens e senhores (todos do sexo masculino) que disseminavam um abaixo-assinado pela "família como deus fez - homem, mulher e filhos". Enquanto um dos rapazes se perdia ao tentar me explicar o porquê daquilo eu olhei bem dentro dos olhos dele e senti pena.

Eles eram muitos e vinham de várias partes do país para conseguir assinaturas e enviar ao Papa pedindo que ele fosse menos tolerante. Eu senti um dos mistos mais doloridos de se sentir: pena e ímpeto de ser violenta ao mesmo tempo, com uma mesma pessoa.

Pedir menos tolerância? Pode ser politicagem do atual Papa -para ser pop- essa conduta amorosa e tolerante, pode sim. Mas o quanto é sabido que a humanidade tem necessitado desesperadamente de amor e tolerância? Que talvez despertem uma corrente que venha de encontro com a banalização.

Sempre houve os fanáticos e os liberais, sempre houve a viadagem e a homofobia, sempre houve o amor e o ódio. Mas eu só estou viva agora e só posso falar com propriedade dos agoras que se aproximam de mim.

Se nos tornamos cada vez mais ilhados, a corrupção só tende aumentar, porque se roubo dinheiro da educação ou da saúde, não é o meu filho que vai ficar semi analfabeto ou sem gaze no atendimento, é o filho de alguém que não mora ou sequer visita a minha ilha, a não ser para roubar.

sábado, 22 de junho de 2013

Que o caos também desconstrua

"...Com muito orgulho, com muito amor"?
O êxtase da juventude comichou e arrepiou o meu inteiro pelas manifestações dos últimos dias, tanta gente dando a cara a tapa, tanta gente dando a cara às fotos, tanta gente dando a cara ao desespero, ao cansaço, ao disparate.
A rua ecoava e estampava em mim, as vozes se misturavam, as palavras se repetiam,  essências primordiais se perdiam.
O êxtase da juventude, aquele que não depende de idade, mas permeia o espírito e a vontade de existir e pertencer, ele -evidentemente- movia tanta gente.
O Brasil acorda todos os dias. Acorda, vai pra rua, trabalha, rouba, pede ajuda, dorme com fome, enche a pança, esquece seu nome, nasce, envelhece, acompanha até em casa, conhece, deita onde consegue, perde, chora, bebe, faz festa, vive, dança, ouve, ri, morre, dorme.
Inegavelmente bonita a massa de gente, que -entre tantos- queria ser conjunto. Inegavelmente bonita a vontade e atitude de ser parte da parte, que quer mudar um todo.
Inegavelmente de embrulhar o estômago a contradição de sentimentos e pensamentos e conclusões e construções, que envolvem a situação.
Críticas em cascata surgem. Donos da razão por toda parte. Criticam os que iniciaram, criticam os que aderiram, os que não. Criticam os que criticam, criticam os que se cansaram, os que querem a 'fama e a glória' de ter estado lá, criticam os que perderam o foco e os que o mantém, os convictos e os confusos, os hipócritas (e quem nunca foi, que assim se mantenha, raridade), os unidos e os partidos, os partidos unidos, os unidos sem partidos, criticam os que jogam flores, os que jogam palavras, os que jogam bala de borracha, os que não jogam nada e os que jogam molotov, criticam a presidente e seu discurso demagógico, volátil, infiel, torto. Criticam o que quer que surja e eu, aqui, reclamo da crítica. "Eu também vou reclamar", Raul. Quem sabe não seja no meio de todo esse caos, que a gente construa forças maiores? Quem sabe não seja.
Não são palhaços, não tem visto a melhor parte de tudo, não deixam de ter medo do ridículo, não fazem o melhor (do pior) com o que tem e não tem como finalidade a alegria pura e simples.
Esquerda, direita, no muro, no meio, transeuntes...e, gente.
O gigante acordou depois de tantos ovos roubados da galinha dos ovos de ouro? O pé de feijão já é multinacionalizado, a galinha já foi clonada. Quem vai botar o gigante pra dormir de volta, e de que jeito?
A organização não suporta a proporção, que o movimento tomou, mas só se pode ser responsável pela sua própria consciência, a do outro é dele a se responsabilizar. É só possível construir reflexão, mas o resultado é instavelmente pessoal.
Entre altos e baixos, amar, admirar e perplexar diante das pessoas, é concluir que a instabilidade destas situações se dá pelas particularidades tão não generalizáveis de cada gente.
Assim, penso... mesmo quando tantos se juntam por objetivos comuns e entoam gritos em uníssono, acendem seus "lados" e prioridades particulares, e tantas vezes não os assumem, e se contradizem. E a presidente é gente, e o cara ladrão do congresso é gente e o policial também, até o (não encontro adjetivo indignado o suficiente para qualificá-lo), que entre tantas outras babaquices, vem dizer que amor (ou que seja tesão, atração, paixão...) precisa ser curado, até ele é gente. E ser gente é ser racional? Essa coisa de ser racional, deus, ela às vezes nos faz ser tão burros.
O que toda essa gente pode fazer, "um por todos", se for um pouco mais sincera todos os dias? Na rua ou em qualquer lugar.

E o embrulho no estômago volta, dançando nas mãos de contradições e vontades. E o medo de ser sempre só um desabafo vazio.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Sr. deputado,

Por algum tempo pensei ter perdido a habilidade de escrever cartas, que muito provavelmente não chegam ao destinatário proposto, mas de repente acumulavam-se uma série de palavras e minha cabeça doía incessantemente, pensei que talvez pudesse parar de doer se eu as escrevesse. Viviane Mosé, filosofa, tem um poema que diz "a palavra presa é doença". Eu acredito, ainda, que a manipulação de palavras com o objetivo de atingir as fragilidades das pessoas, para que elas apoiem ideais e metas particulares, também seja doença.
Sr. deputado, talvez eu deseje, sim, ofender o senhor. Não, não há um talvez, eu realmente desejo, mas não por meio das coisas que escrevo aqui. Aqui explicito, com uma humildade autenticamente esforçada, que o que o senhor tem despertado nas pessoas que eu conheço é uma vontade de construir sensos críticos através de algo que incomoda de forma inegável. A situação causada pela chegada do senhor ao poder da comissão dos direitos humanos fez com que pessoas que jamais protestaram contra algo, quisessem se levantar e mostrar que existem, que tem voz e que tem opinião sobre algo.
O senhor ofende incontáveis pessoas de uma forma que me parece propositalmente provocativa. Não condeno a provocação, sei que os melhores resultados vem de quando somos provocados. Se algo nos provoca a curiosidade, somos tomados pelo desejo e a atitude de aprender, se algo nos provoca vontade, despojamo-nos e saciá-la e, se algo -como o senhor, por exemplo- provoca em nós a revolta e a discórdia, iniciamos uma busca por mostrar que a opinião que temos tem validade ao mundo do qual fazemos parte.
Confesso, entretanto, ter determinado receio de como sucedem (de como sucedemos) com as revoltas.
Sr. deputado, discuti com algumas pessoas, que insistiram que o senhor tem o direito de não concordar com determinadas atitudes de determinadas pessoas. Eu concordo que o senhor tem direito de não concordar.
Sr. deputado, com todo o respeito, eu ri de piadas sobre a sua chapinha. E pergunto ao senhor, se, por algum motivo, eu não concordasse com as pessoas passarem uma chapa de ferro quente nos cabelos, porque os cabelos não foram feitos para isso, tal como o reto não foi feito para ser penetrado, eu sei que poderia expressar a minha opinião e tentar convencer outras pessoas disso e lutaríamos para o fim da produção de chapinhas. Mas e se começássemos a denegrir a imagem das pessoas que usam do artifício? E se falássemos tanto, que elas mesmas se odiassem e arrancassem os cabelos e ficassem confusas sobre algo que simplesmente faziam? Que tinham vontade de ter um cabelo de um determinado jeito, que se achavam mais bonitas e se gostavam mais por terem direito de buscar o bem estar? E se pensassem que não? E se as pessoas que eu convenci a concordarem comigo começassem a atacar e violentar as pessoas que usam chapinha?
Acredito que surgiriam ideias como leis de proteção às pessoas que usam chapinha, entre outras coisas parecidas e, sinceramente eu digo que não concordo que a solução fosse essa.
Talvez tenha sido um exemplo bastante tosco, mas o que quero dizer é que acredito que qualquer pessoa tem direito a não concordar com a atitude alheia, mas acredito que não tenha direito de atacá-la. Acredito.
Tenho outro exemplo, não quero distorcer o que o senhor diz em seu twitter ou qualquer desses meios midiáticos, mas não consigo absorver outra forma a afirmação que o senhor faz sobre os negros serem um povo amaldiçoado. Sr. deputado, os negros somos um povo, só isso. Somos mistura, somos gente. A minha pele, particularmente, é extremamente branca e somos todos um povo.
Sr. deputado, o senhor gosta de sorvete de abacaxi? Não precisa responder se não quiser, sei isso não me diz respeito.
Respeito, eu esperava uma deixa para chegar a tão amável e admirável palavra, RESPEITO.
Sr. deputado, talvez nas próximas palavras o senhor me considere louca, pois posso soar como se concordasse com o senhor, mas já deixo claro que não concordo.
Sei que não se pode conhecer uma pessoa a partir das declarações públicas que ela dá, ainda mais quando a mesma é envolvida profissionalmente com a política. Mas sinto que sei que o senhor se agrada com a polêmica que causa. Não sei o que aconteceu para que se tornasse presidente da comissão de direitos humanos, mas os jogos políticos me embrulham o estômago. Sou uma péssima jogadora, não sei blefar e, por isso talvez eu condene um pouco que tantas pessoas incluam jogo em tantas coisas que nada me parecem ter a ver com isso. Jogo do amor, jogo da política, jogo da religião, jogo da amizade. A palavra jogo, antecedendo as tais outras palavras citadas, parece-me anular as mesmas.
É apenas a minha opinião, mas voltando, sr. deputado, o relativismo diz que tudo é interpretação, que para TUDO se deve considerar o ponto de vista do interlocutor, a respeito de tudo mesmo da vida, até a forma como entendemos o que é amor ou qualquer coisa universal, tudo. E daí vem o anti-relativismo e o anti-anti-relativismo, e acredito que eles venham porque até mesmo o relativismo e seus conceitos acabam se tornando relativos. Citei isso pois me confundo ao me dirigir ao senhor, conheço mais de uma pessoa que diz que mataria o senhor por o senhor ser homofóbico. Conceitos, sr. deputado, conceitos.
As crenças do senhor de nada me importam, desde que não ofendam ninguém. Não é isso o que chamam de respeito? Não é isso que aprendi desde bem pequena? "Respeito é a liberdade de um terminar quando começa a liberdade do outro"? Estou misturando as coisas? Não acho que seja bem assim, respeito não me soa como restrição de liberdade, respeito me soa como algo tão essencial feito o amor. Essência, sr. deputado.
O senhor já ouviu falar em empatia?
Não seria desrespeito se eu dissesse, condenando, que o filho do senhor é um amaldiçoado, pois escolheu gostar de sorvete de abacaxi? Assim como é desrespeito que o senhor diga que a minha filha é amaldiçoada por escolher gostar de mulher. É doloroso que tantas mães, de tantos filhos e filhas, tantos pais, tantos irmãos e irmãs, tantos amigos e amigas, tantos conhecidos, tantos filhos e filhas, que tantos HUMANOS sejam desrespeitados pelo senhor. Por tantos outros senhores e senhoras, que se auto-desrespeitam.
Sr. deputado, eu me dirijo ao senhor, pois o senhor criou uma luta de opostos radicais. Por mais óbvio que pareça, sei as lutas sempre são de opostos, mas algumas radicalidades abrem portas para discussões que permeiam uma quantidade fervorosa da população e, eu acredito que talvez isso possa resultar, um dia, em um equilíbrio, mas, como em toda guerra, às custas de quanta violência entre estes opostos? Nós nos contradizemos, esquecemos de condizer às vezes, tapamos quaisquer olhos e focamos em um único ponto, "vencer". Vencer o que mesmo? Mais gente "do nosso lado"? Deveríamos mesmo é querer que o respeito vencesse, acho que só assim...
Utopia, sr. deputado? Inocência? Ignorância? Clichê? A gente é boa de imaginar, de falar, de idealizar, e se a gente se deixasse ser?
Volto a dizer, eu me dirijo ao senhor, porque ainda não tenho palavras o suficiente pra lidar com as ofensas "pseudo-homeopáticas" de alguns outros deputados e dirigentes. Sr. deputado, o senhor ofende escrachadamente, com palavras, com apontamentos, entre outras coisas. Tantos outros aos quais é dado o poder nos ofendem quando roubam a educação, a saúde, a fé, a paciência. Não, não somos inocentes, nenhum de nós. E, também, nenhum de nós é culpado. O mundo é o que toda gente faz, uns mais, outros menos. SOMOS GENTE.
Sr. deputado, todos os dias eu cometo pelo menos duzentos erros, sei que não tenho moral nenhuma pra lhe escrever. Não é de moral que eu quero dizer, só precisava mesmo me desintoxicar desse tanto de palavras.
Não assassinemos o respeito. O senhor é tão ligado a bíblia, tão ligado a bíblia e, na bíblia que o senhor conhece, para onde é que foi o amor ao próximo? Para onde foi o respeito?
Eu acho o senhor muito espertamente irônico, muito "político", sr. deputado. Não tenho nada contra os políticos, tenho contra a PROMISCUIDADE (na qualidade do que viola o que é moral, pois promiscuidade é definida de diversas formas) que os políticos exercem. Não tenho nada contra políticos, mas contra as atitudes deles.
Sr. deputado, talvez eu falhe muito em ser irônica, não tenho a esperteza ou a oratória do senhor, só queria mesmo dizer que acho que talvez o senhor combine com a comissão qual está no comando, a comissão dos direitos humanos também me soa um tanto irônica. Os direitos geralmente não são tão "humanos", são direitos individualistas, alguns ferindo outros. Entendo que, humanamente, sempre defenderemos o "nosso lado", mas realmente não entendo por que criamos lados e temos a incapacidade de admitir as divergências e diferenças como soma e agregação.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Das 3 milhões de coisas

Parte IV - Pra se navegar um trem a velas desgovernado

"Um pescador em seu barco a navegar. 
É ele quem se entrega ao barco?
Às águas? Ao mar?"


Não era meu, não era do meu vizinho e eu não me lembro o nome de alguém a quem pertencia.  Tinha importância a alguém, e isso bastava.
Quando você olha pra ele -nos olhos- logo sabe(sente), que -sempre que pode- faz o que fez...

Eu tenho os meus limites, os meus muros, minha capas, cascas, amarras, cascos e tenho um receio tremendo de parecer pelada demais por dentro. Mas ontem um amigo de uma sensibilidade fantástica traduziu toda a explicação em algumas poucas palavras: 'Sentimento (no caso ele disse amor) não tem rédeas, é um trem desgovernado que vai pra onde o vento leva'.
Sopra, leva, traz, balança o que houver, vira de ponta cabeça, faz turbilhão, às vezes tudo isso em silêncio. Silêncio que depois nos cabe dar nome, rebocar de palavra, de entendimento, enquadramento, definição. Silêncio que vira falação, às vezes ainda em silêncio com relação ao de fora. Então, começam as escolhas. Tudo simultaneamente, claro, não tem tempo pra pensar, é isso de escolher o tempo todo. E, de repente, algumas forças transformam uma porção de dúvidas em assertividade.
Sim, eu escolho estar junto com você, mas se você não escolher estar comigo, tudo bem. Nascemos um para o outro sendo dois, nossa fusão é soma e, a essência do nosso nós é você e sou eu, com tudo o que trazemos.
Não é indiferença, é compreensão.

Cada tato é capaz de dizer três milhões de coisas, e diz.
Cada milímetro de pele que encosta no milímetro de pele dele envia mensagens instantâneas a todas as partes do corpo.
Tudo é visível.
De olhos fechados ou abertos, tudo se clareia, de certo pela luz da alma que permeia aquele corpo, e com a luz dos caminhos que me constroem. E somos farol.
Somos uma história carinhosamente conturbada estampada na pele.
E somos construção, gozando da vida com a consciência estranha de que "nada se cria, nada de destrói; tudo se transforma", sabendo que tudo o que temos é o agora e que ele não dura mais do que o tempo de um agora,
imensurável.

O novo, misto de receio e anseio.
Até o que se repete ainda é novo.

Não vemos o mundo com os mesmos olhos, não sentimos com o mesmo ser, não pensamos com os mesmos neurônios, mas nos entendemos sutilmente, cada um por si, com o outro, no outro.

O desejo antitético de algo leve, que pudesse se dotar de uma intensidade de me tirar do sério, não é mais apenas um desejo, é palpável e transcendente, metafísico. Tangível e findo, ao mesmo tempo.

Que seja só um jogo bobo de palavras, mas o que há é pertencimento e não posse. Pode-se pertencer livremente onde quer que se sinta bem. Liberdade é caber sem poda.
É abrir a porta emperrada com jeito e não explosão. E, lá dentro, explodir em flores.

Um trem desgovernado também é escolha. Pode-se pular a qualquer momento ou se entregar à jornada pelo controle das velas, amigar-se ao vento, compreendê-lo.
Uma rosa dos ventos não me diz para onde ir, a escolha é minha.
O tempo todo.


Não era meu, não era do meu vizinho e eu não me lembro o nome de alguém a quem pertencia.  Tinha importância a alguém, e isso bastava.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Tem um relógio no céu


Tem um relógio no céu, e eu sei que não tem relógio nenhum, mas histórias sobre relógios sempre me parecem grandes e de grande impacto, então, tem um relógio no céu, tiquetaqueando nosso receio em perder tempo. Cada segundo tem uma ideia de deus.

E, no céu, estampa-se um sorriso. Arredondando as beiradas dos nossos sonhos. Cada sorriso tem um beijo de deus.

Ainda no céu, há um passarinho, todo passarinho é uma vida inteira, libertando a nossa fragilidade dos tabus de fracasso. Cada passarinho tem uma mensagem de deus.


Passarinho, sei que a minha carta vai chegar a você de outra forma, que não em palavra de gente, mas vou deixá-la aqui pros que só sabem ler dessas.

Passarinho, seu nome é a menor parte que te compõe, embora as suas perninhas não passem de 1,5 mm de grossura, seus olhinhos sejam menores do que a letra "o" no tamanho de fonte 8. Em essência - só seu nome é pequeno - porque veio da gente.

Imagino se vocês tem um som que diga respeito a nós, e me entristece pensar que -provavelmente- seja um som de medo, já que a nossa trajetória de gente carrega uma infinidade de toneladas de desrespeito.

Eu, que não faço promessas, já fiz umas três pra pedir que a sua vida seja o mais plena possível. Não menciono duração, mas plenitude. É que, sendo passarinho, confio na sua subjetividade, pureza.

Passarinho, esteja vivo quando virar dia. É um desejo e os céus interpretam os desejos da forma como for melhor, ainda acredito.

Uma hora ou outra da vida acho que toda gente tem vontade de ser passarinho. Às vezes passa até despercebida, mas passa.




Obrigada.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Sr. Prefeito eleito, Bom dia.


Acredito que os medos que transpassamos na vida, transformam-se em forças. E isso me parece um ciclo fantástico de superação.

Por meio desta, não pretendo insultá-lo ou cobrá-lo. Apenas sinto que não posso negligenciar uma vontade pulsante de expressar publicamente minha opinião, que tantas vezes foi reprimida por medo. Hu
mildemente, sei que sou um pequeno grão, não
passo disso. E, sei ainda, que a partir do resultado desta eleição, o Sr. tem poderes (e que esta palavra seja cautelosamente interpretada) instituidos sobre os demais grãos da cidade. Mas acredito, ainda, que cada grão -por menor que possa ser- é dotado também de poderes e interferências nas relações com cada outro.
Não conheço o Sr., apenas por meio de outras pessoas. E as pessoas são cheias de suas opiniões e julgamentos e, muitas vezes, tendem a querer incutar tais interpretações nos demais, mas sempre achei necessário -para que se possa dizer que conhece- conhecer com a própria presença e convivência. O que não há.
A formação profissional do Sr. é uma das que mais admiro, era o meu sonho de infância e é de uma carga positiva sensacional. E, admito que essa admiração já se transfere à sua pessoa, apenas pelo fato de que, o que se dedica a valorizar e cuidar da vida (independente de reino, filo, classe, ordem, família, gênero ou espécie), é bastante louvável, mas, claro, dependendo de como é levada.
A parte isso, volto a dizer, não conheço o Sr.
Tenho consciência de que ações administrativas não são fáceis ou de fácil acesso. Sei que esbarra-se em diversos limites burocráticos e hierárquicos e, que seja estúpida ingenuidade minha, mas acredito na força maior dos ideais de bem e, que, com perseverança e trabalho, é possível agir em benefício comum (por utópico que pareça).
Não tenho medo dos próximos quatro anos, como ouvi alguns conhecidos dizerem ontem que tem. Meu medo se dá a partir do segundo seguinte ao segundo presente, pois este já se faz desconhecido. A cidade cresceu nos últimos anos, sim. Mas é inviável ignorar o fato de que ainda é envolvida por buracos, e não me refiro apenas aos do asfalto, mas buracos sociais. Sei que não cabe aos deveres de um prefeito "salvar o mundo" e, sequer "salvar a cidade". Salvações são fantasias quando acreditamos que se dão de forma imediatista. O que acredito -e exponho- é que o "heroísmo" pode vir de formas veementemente simples e reais.
Falar sobre saúde para um secretário de saúde me parece um tanto pretensioso da minha parte, mas é um dos pontos importantes dos quais tenho necessidade de expressar. Além disso, prefiro acreditar que não serei condenada por esta atitude, prefiro não temer e acredito no bom senso do Sr.
Sei que nada é controlado por uma pessoa só, sei que os problemas de uma cidade não podem ser colocados como carga de culpa do respectivo governante. Desacreditei inúmeras vezes da política do senso comum, desacreditei inúmeras vezes do sistema e de como este é administrado à nossa sociedade, mas a descrença não acarreta qualquer tipo de solução se for passiva, ela acarreta desistência e, disso quero distância. O que quero dizer é que sei que a cidade é um contexto imenso, a política é um contexto gigantesco e a administração é um contexto de complexidades exacerbadas, contextos estes, os quais permeiam e permearão o seu trabalho a todo tempo.
Como secretário de saúde, o Sr. não curou as defasagens da saúde pública da cidade, e eu acredito que cura seja um conceito delicado ao extremo e suscetível a diversas definições de sentido. Não tenho bagagem que fundamente qualquer tipo de crítica que se refira ao seu trabalho, gosto de pensar que tenha feito o melhor possível, mas, como já disse anteriormente, é fato que as soluções não dependem do trabalho apenas de uma pessoa, somos um conjunto.
Talvez essa fosse a parte na qual eu esperava chegar desde o início, somos um conjunto. A partir do fato de que influímos em todas as vidas que caminham aos nossos redores, somos um conjunto. Um conjunto como um ser, como uma família, como um bairro, comunidade, cidade, estado, país e mundo. Em nossos diversos níveis de complexidade.

O Sr. se torna agora um dirigente de um conjunto, mas não deixa de ser parte do mesmo, este é um ponto no qual me invado de inquietante preocupação no que diz respeito a diversos dirigentes. Quando se tornam líderes, alienam-se da realidade do todo. E essa me parece a fonte de intermináveis equívocos.
A democracia -claro, da forma como conhecemos na nossa realidade- está feita e consumada, há décadas não temos colhões o suficiente para desinstituir seus resultados, por isso, acho baixo o "conforto" de reclamações vazias, as quais tenho ouvido a respeito deste (e de outros) resultados.
Por fim, mas ainda talvez desejando expor um pouco mais, desejo muito trabalho ao novo prefeito, muito trabalho ao conjunto, ao todo, e a cada parte em busca de saúde, em busca de fomentação da qualidade de vida do todo. Desejo amor, que ame o que faça, pois assim, é muito mais gratificante e passível de sucesso. Desejo uma paz imensa, que resulte do trabalho bem feito e dedicado. Desejo que os grãos, nós, grãos civís(envolvidos -profissionalmente ou não- na política), estejamos dispostos a apoiá-lo no trabalho em prol desta qualidade de vida voltada ao conjunto, que somos nós também. Desejo abrigo e acalento aos que precisam, todos.

Respeito, tá tudo aqui.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Vim tropeçando tanto, que demorei quase três tantos do caminho. Perdi o sentido no meio das tantas pessoas e suas tantas opiniões e vaidades, eu me perdia nos tantos olhos fechados, que falavam sobre o que viam, mas não. Ainda não posso ficar. Ainda não sei relevar o meu talento em ir embora. Volto -para a solidão do caminho, ou pro caminho da solidão- a tropeçar em mim mesma, minhas tantas opiniões e vaidades, mas trago os olhos abertos.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

...com C, de Conotação

Egoísmo:
Minha casa não cabe no mundo,
meu sonho não cabe na minha casa,
mas cabe o mundo no meu sonho.
Um  "S.O.S." pregado no rosto,
levava assim.

Mas tampava pra ninguém mais ver.




Culpa:
"Insanidade é perder a noção entre certo e errado"
-ouviu.
Enlouqueci!
-pensou.
Eles me enlouqueceram
-perdoou-se.

Transfere pra se livrar e se prende.



Paixão:
É insuportavelmente chato!
É chato.
É aceitavelmente chato...

É desejavelmente chato.
(às vezes, em questão de segundos)



Saudade:
Mochila de rodinha,
copinho de pegar lebiste,
boneco de farinha.

Amanhecer feliz anoitecido triste.

Foto da lua,
banquinho de frente pra rua,
deitar na calçada,
fazer um filme de espada.

Fantasia sem pressa,
Jogo da Vida,
encontrar uma peça,
passagem de ida.

"Fica Comigo"



Inocência:
Jogo em cima do telhado
um dente caído e
faço um pedido:
Que meus sentimentos podiam ser os donos das minhas verdades;
Que não ia deixar as paixões pelas metades.


Coerência:
Não possuo verdades.



Imaturidade:
Não aceito que algo não pode ser mudado
mesmo que pareça solidamente estipulado.


Sedução:
Eu quero
quero mesmo,
quero agora
e sempre que vejo,
até na lembrança.



Insensatez:
"Para, continua"
reticências



Perigo:
Olhos,
ouvidos,
boca,
nariz

Tato.




Rima:
Dor
flor
cor
calor
ardor
sabor
expor

Amor.




Indescritível:
"Eu sei que ela é um brinquedo,
mas eu amo ela porque me faz sorrir"


Azul:
Chama
o olhar,
o gosto.




Impossibilidade:
Sem amor,
e suas rimas.



Eu:
Alguma coisa
entre 100 bilhões de neurônios
e Vocês.




Choro:
Arrepio




Covardia:
Silêncio
fora de hora.
Estaticidade.




Caos:
Romper,
construção,

necessário.




Teimosia:
Amar.





Irreverência:
Papel,
lápis,
solidão,
esconderijo.




Fugir:
Pra não te esperar.




Ficar:
Florescência,
encontro,
semente,
solo,
broto,
raiz.





Crescer:
Tecido adiposo.





Amor:
Coração torto
desenhado num papel vermelho
rasgado
colado
encontrado
perdido
parece beirada de sorriso
parece contorno de pingo de lágrima
parece sombra de onda de mar,
topo de barbatana de golfinho.
Parece curva de estrada;
Parece curva do colo

Parece você(s).













sábado, 28 de julho de 2012

Respeito mútuo: o tempo e a vida



Mas o amor é convivência e dessa crença eu não abro mão. Embora eu mude muito de opinião.Carrego um conservadorismo grosso, que aprendi fazer caber até nos meus dias mais desvairados. Aprendi segurar a mão de deus antes de saber dizer boa noite ao diabo. E não tenho medo de nenhum dos dois. Espero meu sono sentada, escoro a cabeça, minto pro cansaço. Mentem pra tudo nesses dias muito antes de mim, de nós. Mentem até liberdade e eu não sei compreender. Envelheci o pensamento com exagero. Acordar com o mesmo estado de espírito de quando ter ido dormir. Que antes o sono renovava tudo, dormir e acordar era como morrer e nascer de novo, novo, um dia novo eu sabia encarar como um novo dia, isso quando contida do abraço interno da infância, quando ele era mais forte. É cedo ainda, mas parto, parte; uma parte de mim partiu -enraizada- daqui. E ao mesmo tempo sou e não sou, sonho e não vivo, mas vivo cada sonho como sentisse cheiro, gosto, vento, cor. Sentia mais frio antes de ter comigo a lembrança de como se sente o meu pescoço quando encontra o seu pescoço num abraço. E que tamanho de exagero dizer isso, mas sou irremediavelmente exagerada. Seu abraço pouco, seu beijo pouco, meu mergulho pouco -sem saber nadar- no seu olhar de muito; foram a minha convivência sua. Não que baste, eu e o bastante nos encontramos pouco, damo-nos pouco. Bastar é abismo de não faltar e, vive-se do que falta, do tempo que falta até a morte me buscar p'ronde for. Do tempo que falta pra brotar coragem, não sei dizer. Não saber tanto me parece quase sinônimo de solidão, essa busca desgovernada -ou governada pela desrazão- por algum tipo de compreensão. Mas aqui não anseio compreender, meu simples anseio é um desejo quase funcionalista de tirar proveito da solidão. Quanto mais sozinha, menos me interfiro, menos sou permeável ao pensamento do ouvido alheio. E mais me olvido do tempo, como se fizesse malabarismo e o tempo fosse meu, das minhas mãos, do que jogo no mundo sabendo que vai voltar pro meu tato. Não tenho gosto pela solidão, só aprendi a mantê-la sem que me cortasse a jugular.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Mil e uma

Por incontáveis janelas, que insistia em escancarar, via massacrados os sonhos que nascera, sem outro motivo, que não, sonhar. Eram triturados por este mundo moinho, no qual era comum beber Alegria pra sentir não ser tão sozinho, eram espremidos pela má relação entre os homens e a má relação entre estes e todo o mais do mundo. Pela má política, má vontade, pelo maniqueísmo, individualismo, hedonismo. Mas o toque do telefone às vezes muda o momento, meio momento, se que é que se pode dividi-los. E ouvir o sorriso do agora estampado no futuro, ou vice-versa, põe no peito um tanto de ternura, que alivia. Olha bem pra essa porção de carinho desinteressado. Inspirava mil sonhos, mil vontades, mil amores, mil quereres, mas não podia caber tanto, se era uma. Estender, ramificar, ampliar. Repetições de verbos nunca iguais. Assim como de sonhos, amores e metas. Repetições plurais de palavras desordenadas. Desordenada é a imprudência da mente.